Exposição Caminho

CAMINHO
Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
(…)
Antonio Machado – Poema XXIX de Provérbios y Cantares

O caminho é um conceito vasto, já explorado à exaustão no campo do simbólico. Inúmeros autores escreveram epopeias, poemas e romances que têm o caminho como metáfora para a vida. A partir desses escritos, descobrimos que a vida não acontece ao longo do caminho; a vida é o caminho. Neste caso, o caminho tem início na rua, nos riscos dos muros. No trajeto, tem um beco, cuja história se confunde com a de Rafael – ou de seu pseudônimo Highraff.
Uma trajetória pode ser um percurso realizado por um corpo no espaço, mas também pode se referir a uma jornada mental – e nenhum dos dois costuma ser naturalmente linear. Mas podemos tomar como norte Lygia Fagundes Telles, generosa com os reveses ao nos dizer que “é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas”.
Caminho marca, portanto, uma curva na trajetória de Rafael: é o momento em que ele passa das ruas para o ateliê; isso vem acompanhado da consolidação da matemática e da geometria, que tomam um lugar antes dominado pela intuição. Nesse lugar, o artista decide trazer para as obras símbolos carregados de importância pessoal, de espiritualidade e de tradição popular – como fizeram grandes mestres que o inspiram, como Rubem Valentim. Assim como na obra de Valentim, a abstração de Rafael não é desprovida de sentido; pelo contrário, ambos articulam o formal geométrico com o símbolo, o signo e o sagrado.
As referências de Calazans são diversas: embora seja notável a linguagem pop estabelecida pelos anos dedicados ao graffiti, o artista busca ser cada vez mais ser sintético. Por isso, as obras que compõem esta exposição têm um caráter mais sóbrio, trazem menos elementos e mais simetria. Os títulos seguem o raciocínio da síntese, fundindo o racional e o espiritual, e resumem a intenção de Rafael na concepção de cada obra.
Neste Caminho, Rafael Calazans oferece ao público um recorte de seu universo particular, uma fotografia deste trecho da sua trajetória, propondo uma cocriação, na qual toma emprestadas as leis da natureza. Essas regras são, aliás, o único caminho em comum que todos os seres vivos percorrerão.


Exposição Organometria

“Organometria” é minha primeira individual após um longo intervalo de 14 anos, dedicados ao muralismo e à rua. Comemoro 25 anos de carreira atravessando as paredes num mergulho intimista em mim mesmo, buscando compreender mais profundamente minha arte e tudo que aprendi até aqui. Por consequência, ao explorar telas, pinceis, tintas, alquimias de cores, reencontro também meu eu-pintor, esquecido entre os caps e a agilidade das latas de spray.
As 13 telas que compõem a série, pintadas entre 2022 e 2023, carregam minha história, meus estudos e vivências, tanto físicas, quanto espirituais. A 14ª, um glossário visual intuído durante esse grande mergulho, sintetiza o universo conceitual da exposição e mapeia os signos implícitos na arte. Os grafismos em tons terrosos no chão e nas paredes da galeria aterram esses saberes subjetivos, conectando o trabalho atual com os caminhos percorridos na minha trajetória. Fogo, terra, água e ar. Essencial para a vida, como a arte e a ciência.
Esta exposição diz muito sobre o tempo. É o resultado de um despertar após um ciclo de muita fartura, mas que já clamava pela renovação. Tem sabor de primavera regada a frutos doces e suculentos, depois de um longo inverno recolhido no ateliê, embalado ao som analógico do toca-discos. Quase dois anos de gestação até o cultivo, retorno para comemorar, agradecer e compartilhar com vocês a abundância dessa nova colheita”
Rafael Highraff

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